sexta-feira, 4 de junho de 2010

O frio das paredes

Das paredes frias da minha casa
sinto a frieza das pessoas que passaram por aqui
sinto na vibração dos canos nas paredes
que nem sei como os sinto

O bater das janelas é como o bater de seus corações
vivos e taquicárdicos, fortes e arredios
mas frios
frios como a palavra câncer que sai da boca de um médico

Frieza, como num jogo de poker em que se ganha
somos nós em Buenos Aires
Frios um com o outro
eu numa janela e você em outra, do avião

Somos nada indo pra um lugar
um grande nada querendo achar um tudo em álguem
sendo que o tudo não existe
então terminamos sendo ninguém

Ventos frios do Chile batem nas montanhas da Argentina
e eu sem você, e com os outros
sem ninguém do lado do meu eu outro
meu outro sem você que não sou eu

Sinto frio
frio em relação as pessoas
que vem com seu casaco quente de vontade
perto da minha pele escassa de desejo
morta

Ferida por uma faca sem lâmina
enfiada a sangue frio

o sangue jorra quente do meu corpo frio
sinto o jorro trio sair do meu estômago
são três esguichadas frígidas
de frio

E ali de joelhos na morte
é que me torno quente, sadio
ali de joelhos no frio
sou viril e rígido

sou rio
que escorre sangue quente
no frio

4 comentários:

Taiyo Omura disse...

DU CARALHOOOO!!!!

Eleanor Rigby disse...

Excelente! Senti calafrio em cada verso, em cada verdade.
'Sinto frio
frio em relação as pessoas
que vem com seu casaco quente de vontade
perto da minha pele escassa de desejo
morta' PERFEITO!

Rafael disse...

É BOM PORRA

flaviadoria disse...

Poxa,genial, você podia ler esse no Corujão. Melhor que ficar lendo as viajens do Rafael, haha - brinks Rafael, brinks.